domingo, 2 de janeiro de 2011

Ostentação

Os senhores, dos fundos de seus copos de whiskey
Importados da Escócia
De onde sequer conhecem a história
Divagam pelos jantares

Suas senhoras, do alto de seus saltos Luís XV
Adiquiridos em viagem à Paris
Desfilam pelos jantares

Os filhos pensam pairar, por uma fração de segundo, no ar
Quando da alta velocidade de seus jet-skis
A cavalgar sobre as águas do rio

É preciso livrar essa cultura
De precisar ser como eles
De tentar ser como eles
É preciso livrar essa tortura

A vida social, porém,
Pede que nos encontremos
Entre quatro paredes quaisquer
Erguidas abaixo de um teto de vidro

Se faz-se necessário aparecer
Então ostento tudo o que tenho
Não tenho muito a mostrar
Mas o amor, até o fim, vou ostentar

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Tarefa

Sem saber por onde começar
Começo a trabalhar
Em todos os meus projetos
Todos ao mesmo tempo, fetos

O profissional em mim quer dar as caras
E mostrar que é bom e sabe disso
O amador em mim está sempre presente
Sem saber ao certo o que lhe dizer

A barba, já com incontáveis delongas,
Acusa a vida farta de tarefas e sonhos
Todos em fase de alicerce

Há muito o que se fazer daqui pra frente
Pra ser feliz
Mas é tanta coisa a se fazer
Que não dá pra fazer nada

A tarefa de ser feliz é, realmente, bastante difícil

E as palavras acabam, uma hora ou outra,
Mesmo sem saber
Se ajudaram a flexionar o próximo passo
E sem saber se falavam sobre amor ou a bosta do dinheiro

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Roupa Suja

Aquela pilha de coisas jogadas à revelia
Que não se resolveram
Parece não querer diminuir

As manchas insistem em não sair do colarinho
Ninguém parece querer lavá-la, encardida

Aquele amontoado de alinhavados sujos
Que têm as linhas afrouxadas pela falta de contato
Querer fingir que está tudo limpo é seu maior erro

Minha ingenuidade me irrita, maltrata
Sua falta de memória me assassina

Segundo a segundo
Ponto a ponto de linha suja

Meu desprezo é pra você sentir
O menor pedaço da dor que sobrou em mim
E nós somos cínicos ao ponto de sorrir

Pára, pára
Raiva, sou eu de novo

terça-feira, 8 de junho de 2010

Amores, amigos, amores amigos e anônimos

Pela falta do amor
Continuo a observar as fotos
E lembrar de alguma coisa antiga que sinto tamanha saudade
Que parece tão antiga quanto as pirâmides de Cairo

Pela saudade dos amigos
Continuo a observar as fotos
E lembrar de alguma cena feliz
Que - somente a cena - já foi muito melhor que a vida inteira dos que fingem bem-estar

Pela falta da família
Me agarro a qualquer vértice ao alcance da mão
E, mesmo assim, lembro-me que posso voltar quando quiser, mesmo que tudo mude

Pela falta do que fazer com meu coração
Me agarro a estes poemas tristes
E lembrar que assim posso compartilhar - com pessoas com e sem nome - a dor de não saber pra onde, porque e como ir

terça-feira, 18 de maio de 2010

Simplicidade

A vida é simples,
apesar de não ser sempre como queremos e planejamos.

A vida é simples
e você e, às vezes eu, a complicamos.

A vida é simples.
Difícil é viver.